← Voltar ⌂ Início
1

Por que a Nutricao e Diferente no Paciente Ventilado

Conceitov

O paciente em ventilacao mecanica (VM) encontra-se em um estado de estresse metabolico intenso, com hipercatabolismo, perda acelerada de massa muscular e demanda nutricional elevada. A nutricao adequada e parte fundamental do suporte intensivo — nem a subalimentacao nem a superalimentacao sao toleradas neste contexto.

Consequencias da Subalimentacao

  • Fraqueza dos musculos respiratorios (diafragma)
  • Dificuldade de desmame ventilatório
  • Aumento da taxa de infeccao pulmonar e sistemica
  • Maior tempo de VM e de UTI
  • Piora da imunidade e cicatrizacao
  • Risco de falencia respiratoria por desnutricao

Consequencias da Superalimentacao

  • Aumento da producao de CO2 (hipercapnia)
  • Dificuldade de desmame por carga ventilatória elevada
  • Hiperglicemia por excesso de glicose
  • Esteatose hepatica e colestase
  • Hipertrigliceridemia
  • Sobrecarga volumetrica e edema pulmonar
Evidencia clinica - adequacao calorica e desmame Pacientes que receberam entre 33% e 65% do prescrito tiveram maiores chances de desmame ventilatório antes da alta da UTI, comparados aos que receberam baixa ingestao. A adequacao nutricional, mesmo parcial, esta associada a melhores desfechos respiratorios. (Rev. Cient. Esc. Estadual Saude Publica Goias, 2023; Highlights BRASPEN 2023)
Superalimentacao e CO2 - relacao direta A superalimentacao, especialmente por excesso de carboidratos, resulta em aumento da producao de CO2 (VCO2), elevando a demanda ventilatória e dificultando ou impossibilitando o desmame da VM. Em pacientes com reserva ventilatória reduzida, este efeito pode ser determinante para o insucesso da extubacao. (Sanarmed - Avaliacao Nutricional do Paciente Grave, 2024; Diretrizes Brasileiras de VM, 2013)
2

Fases Metabolicas e Metas por Fase

Fasesv

A doenca critica evolui em fases metabolicas distintas. A oferta nutricional deve ser adaptada a cada fase — o que e adequado na fase aguda pode ser insuficiente na recuperacao, e vice-versa. A BRASPEN 2023 recomenda progressao gradual da oferta respeitando essas fases.

Fase Aguda Inicial
15–20 kcal/kg/dia
Dias 1 a 4
  • Hipocaloria permissiva intencional
  • Proteina: 1,2 g/kg/dia
  • Resposta inflamatoria intensa
  • Resistencia a insulina elevada
  • Autophagia como mecanismo protetor
  • Iniciar TNE precoce em 24-48h
Fase Pos-Aguda
25–30 kcal/kg/dia
Dias 4 a 7
  • Progredir oferta energetica
  • Proteina: 1,3-2,0 g/kg/dia
  • Estabilidade hemodinamica atingida
  • Anabolismo comeca a predominar
  • Meta: 80% das necessidades
  • Calorimetria indireta ideal
Fase de Recuperacao
30–35 kcal/kg/dia
Apos o 7o dia
  • Meta calorica plena ou aumentada
  • Proteina: ate 2,5 g/kg/dia
  • Foco em recuperacao de massa magra
  • Avaliacao para desmame VM
  • Reabilitacao fisica + nutricao
  • Iniciar transicao para via oral
Recomendacoes BRASPEN 2023 para o paciente em VM
Fase aguda: 15-20 kcal/kg/dia e 1,2 g proteina/kg/dia ate o 4o dia
Fase pos-aguda: progredir para 25-30 kcal/kg e 1,3-2,0 g proteina/kg ate o 7o dia
Calorimetria indireta: metodo preferencial para estimar GER em VM
Fonte: BRASPEN 2023; Ganepeducacao - Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023
3

Quociente Respiratorio (QR) e sua Relacao com a Nutricao

QRv

O Quociente Respiratorio (QR) e a relacao entre o volume de CO2 produzido e o volume de O2 consumido (VCO2/VO2). E um indicador do substrato energetico predominantemente oxidado e tem importancia direta no manejo ventilatório — quanto maior o QR, maior a producao de CO2 e maior a demanda sobre o sistema respiratorio. (Silva et al., in: Waitzberg DL, 2018; Nutritotal PRO, 2023)

0,70
Lipideos puros
Menor producao de CO2. Ideal em pacientes com dificuldade de desmame por hipercapnia.
0,80
Proteinas
QR intermediario. Oxidacao de aminoacidos com producao moderada de CO2.
0,84
Metabolismo misto
Carboidrato + lipidio + proteina. Valor esperado em dieta equilibrada.
1,00
Glicose pura
Maior producao de CO2. QR acima de 1,0 indica lipogenese (excesso calorico).
QR acima de 1,0 - sinal de superalimentacao QR maior que 1,0 indica que o organismo esta convertendo excesso de glicose em gordura (lipogenese), com producao de CO2 ainda maior que o consumo de O2. Este cenario aumenta significativamente a carga sobre o sistema ventilatório e pode impedir o desmame da VM. Reduzir aporte calorico total, especialmente de carboidratos. (IMeN - Perguntas mais frequentes em avaliacao nutricional; UFRJ Calorimetria, 2023)
Aplicacao pratica do QR na UTI O QR so pode ser medido pela calorimetria indireta. Em sua ausencia, a regra pratica e: evitar oferta de glicose acima de 5 mg/kg/min (TIG), nao ultrapassar a meta calorica estimada e aumentar a proporcao de lipideos na dieta de pacientes com hipercapnia ou dificuldade de desmame. Formulas enterais com alto teor de lipideos e baixo teor de carboidratos (ex: Pulmocare) podem ser consideradas em casos selecionados de DPOC e hipercapnia. (Diretrizes Brasileiras de VM, 2013)
Situacao ClinicaQR EsperadoConduta Nutricional
Jejum prolongado / subnutricao0,70 - 0,75Iniciar nutricao com progressao gradual
Dieta equilibrada / sem estresse0,80 - 0,87Manter oferta atual
Excesso de carboidratos0,90 - 1,00Reduzir glicose; aumentar proporcao de lipideos
Superalimentacao / lipogeneseMaior que 1,00Reduzir oferta calorica total urgentemente
Hipercapnia por excesso de CHOMaior que 1,00Aumentar lipideos; considerar formula pulmonar
4

Oferta Proteica e Musculo Respiratorio

Proteinav

A musculatura respiratoria - especialmente o diafragma - e altamente vulneravel ao catabolismo do paciente critico. A perda de massa muscular respiratoria e um dos principais determinantes do insucesso no desmame da VM. A oferta proteica adequada e a intervencao nutricional mais impactante neste contexto.

Metas proteicas no paciente em VM - BRASPEN 2023
Fase aguda (dias 1-4): 1,2 g proteina/kg/dia
Fase pos-aguda (dias 4-7): 1,3-2,0 g proteina/kg/dia
Recuperacao e reabilitacao: ate 2,5 g proteina/kg/dia
Terapia de substituicao renal continua: ate 2,5 g proteina/kg/dia
Fonte: BRASPEN 2023; Nutritotal PRO - Terapia nutricional no paciente critico, 2023; Nutritotal PRO - Parecer BRASPEN COVID, 2020

Efeitos da Oferta Proteica Adequada

  • Preservacao da massa e forca do diafragma
  • Manutencao da funcao imunologica
  • Cicatrizacao e recuperacao tecidual
  • Reducao do tempo em VM
  • Menor perda de massa magra
  • Melhor tolerancia ao desmame

Monitoramento da Oferta Proteica

  • Balanco nitrogenado: meta balanco positivo
  • Ureia urinaria de 24h (quando disponivel)
  • Pre-albumina: marcador de resposta a TN
  • Avaliacao funcional: forca de preensao palmar
  • Ultrassom muscular: espessura do diafragma
  • Registrar adequacao proteica diariamente
Apos a saida da UTI - deficit proteico continua Estudo apresentado no Congresso BRASPEN 2023 mostrou que apenas 50% dos pacientes atingem 90% das metas proteicas apos a UTI quando em alimentacao oral exclusiva, e levam em media 6 dias para reconquistar a meta proteica. A manutencao da sonda enteral apos a UTI foi indicada como estrategia para garantir aporte adequado na transicao. (Highlights BRASPEN 2023)
5

Via de Acesso e Posicionamento em VM

Acessov

A via de acesso enteral e o posicionamento do paciente sao aspectos criticos na nutricao do paciente ventilado. A VM aumenta o risco de broncoaspiracao e pneumonia aspirativa, tornando os cuidados de posicionamento ainda mais importantes.

SituacaoVia PreferencialJustificativa
VM sem gastroparesiaSNG ou SOG (gastrica)Via padrao. Mais facil posicionamento e progressao.
VM com gastroparesiaSNE pos-pilorica (jejunal)Menor risco de refluxo e aspiracao. Indicar proicineticos antes.
APACHE II elevadoConsiderar SNE pos-piloricaAlto risco de intolerancia gastrica em pacientes mais graves.
VM em posicao pronaSNE pos-pilorica preferencialMenor risco de broncoaspiracao na mudanca de decubito.
VM prolongada (mais de 21 dias)Avaliar gastrostomiaMaior conforto e menor risco de sinusite por sonda nasal prolongada.
Cabeceira elevada a 30-45 graus - obrigatoria em VM A elevacao da cabeceira entre 30 e 45 graus durante a infusao da dieta enteral e uma das medidas mais eficazes para prevencao de pneumonia associada a ventilacao mecanica (PAV). Deve ser mantida continuamente, exceto durante procedimentos especificos. (BRASPEN Enfermagem 2021; Diretrizes Brasileiras de VM 2013)
Sonda orogastrica (SOG) vs nasogastrica (SNG) em VM Pacientes intubados com tubo orotraqueal frequentemente recebem sonda orogastrica (SOG) em vez de nasogastrica, pois o tubo nasal pode causar sinusite nosocomial. A SOG tem as mesmas indicacoes e contraindicacoes da SNG, com cuidados similares de confirmacao de posicionamento.
6

Paciente em Posicao Prona - Cuidados Nutricionais

Pronav

A posicao prona e indicada em pacientes com SDRA grave (PaO2/FiO2 menor que 150 mmHg) e melhora a oxigenacao ao redistribuir o fluxo sanguineo pulmonar. Do ponto de vista nutricional, exige cuidados especificos para prevencao de aspiracao e manutencao do aporte enteral. (RMMG, 2017; Nutritotal PRO - Parecer BRASPEN, 2020)

Cuidados com a TNE na Prona

  • Pausar a dieta enteral antes da movimentacao (avaliar protocolo institucional)
  • Retomar apos estabilizacao da posicao prona
  • Preferir via pos-pilorica (SNE jejunal) para menor risco de aspiracao
  • Manter cabeceira elevada mesmo em prona (posicao reversa de Trendelenburg)
  • Monitorar VRG com mais frequencia
  • Usar bomba de infusao continua - nunca bolus ou gravitacional

Nutricao Parenteral em Prona

  • A NPT NAO deve ser pausada durante a movimentacao para prona
  • Verificar permeabilidade e fixacao do cateter antes da movimentacao
  • Proteger o cateter durante a rotacao para evitar tracao
  • Monitorar sitio de insercao apos cada movimentacao
Hipofosfatemia e desmame ventilatório em prona A deficiencia de fosforo pode contribuir para fraqueza diafragmatica e retardo no desmame ventilatório de pacientes criticos, inclusive naqueles em posicao prona. Monitorar fosforo serico diariamente e repor agressivamente quando necessario. A hipofosfatemia tambem pode sinalizar sindrome de realimentacao. (Nutritotal PRO - Parecer BRASPEN COVID, 2020)
7

SDRA - Cuidados Nutricionais Especificos

SDRAv

A Sindrome do Desconforto Respiratorio Agudo (SDRA) e uma das condicoes mais graves do paciente ventilado, caracterizada por hipoxemia refrataria, reducao da complacencia pulmonar e infiltrado bilateral. Pacientes com SDRA apresentam gasto energetico elevado e necessidades nutricionais especificas. (Estrategia Med; Rev. Contemporanea, 2025)

Objetivos da TN na SDRA

  • Prevenir e tratar desnutricao
  • Preservar musculo respiratorio
  • Modular resposta inflamatoria
  • Evitar sobrecarga ventilatória por QR elevado
  • Minimizar sobrecarga hidrica

Metas na SDRA

  • Energia: 20-25 kcal/kg/dia (hipocaloria permissiva na fase aguda)
  • Proteina: 1,3-2,0 g/kg/dia
  • Limitar TIG abaixo de 5 mg/kg/min
  • Formulas com menor teor de CHO se hipercapnia
  • Balanco hidrico zero ou negativo

O que Evitar na SDRA

  • Superalimentacao calorica
  • Excesso de carboidratos (QR elevado)
  • Sobrecarga de volume hidrico
  • Suplementacao rotineira de antioxidantes em doses altas
  • Suspender TNE sem indicacao precisa
Formulas imunomoduladoras na SDRA - controversia O uso de formulas enriquecidas com acidos graxos omega-3 (oleo de peixe), GLA (acido gamalinolenico) e antioxidantes foi estudado na SDRA com resultados controversos. Estudos iniciais mostravam beneficio, mas ensaios maiores nao confirmaram reducao de mortalidade. A BRASPEN 2023 nao recomenda o uso rotineiro destas formulas em todos os pacientes com SDRA. Discutir com a equipe medica caso a caso.
8

Nutricao e Desmame Ventilatório

Desmamev

O desmame ventilatório e o processo de transicao da ventilacao mecanica para a respiracao espontanea. A nutricao tem papel direto no sucesso do desmame — tanto a subnutricao (fraqueza muscular) quanto a superalimentacao (aumento do CO2) podem causar falha. (Brazilian Journal of Development, 2023)

Fator NutricionalImpacto no DesmameConduta
Deficit proteicoFraqueza diafragmatica, fadiga muscular, falha no TREGarantir 1,3-2,0 g proteina/kg/dia na fase pos-aguda
Superalimentacao carboidratosQR elevado, hipercapnia, aumento da demanda ventilatóriaLimitar TIG abaixo de 5 mg/kg/min; aumentar proporcao de lipideos
HipofosfatemiaFraqueza muscular severa, falha no desmameMonitorar fosforo diariamente; repor agressivamente
HipomagnessemiaFraqueza muscular, arritmiasMonitorar e repor magnesio conforme laboratorio
Deficit calorico acumuladoDesnutricao, sarcopenia, prolongamento da VMCalcular e registrar adequacao calorica diariamente
Sobrecarga hidricaEdema pulmonar, reducao da complacenciaBalanco hidrico zero ou negativo; formulas hipercaloricas
Indices preditores de desmame - contexto nutricional
Pressao Inspiratoria Maxima (PImáx): reflete forca dos musculos respiratorios — diretamente influenciada pela nutricao proteica
IRRS (Indice de Respiracao Rapida e Superficial) = f/Vt: elevado na fraqueza muscular por desnutricao
Avaliacao nutricional antes do TRE (Teste de Respiracao Espontanea) e recomendada
Fonte: Brazilian Journal of Development - Desmame da VM, 2023; Diretrizes Brasileiras de VM, 2013
Estrategia nutricional para otimizar o desmame Na fase pre-desmame, priorizar: (1) oferta proteica plena de 1,5-2,0 g/kg/dia, (2) adequacao calorica sem superalimentacao, (3) correccao de eletrolitos especialmente fosforo e magnesio, (4) balanco hidrico neutro ou negativo, (5) reabilitacao fisica precoce aliada a nutricao para recuperacao do diafragma e musculatura acessoria.

Referências Bibliográficas

  • BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Critico Adulto. BRASPEN Journal, v.38, n.2, Supl 2, 2023.
  • Singer P et al. ESPEN guideline on clinical nutrition in the intensive care unit. Clinical Nutrition, 2023. DOI: 10.1016/j.clnu.2023.01.011
  • Prodiet Nutrition. Highlights BRASPEN 2023 - Congresso Brasileiro de Nutricao Enteral e Parenteral. Disponivel em: prodietnutrition.com.br, 2024.
  • Nutritotal PRO. Terapia nutricional no paciente critico - Diretriz BRASPEN. Disponivel em: nutritotal.com.br/pro, 2023.
  • Nutritotal PRO. Parecer BRASPEN sobre cuidados nutricionais em pacientes hospitalizados com COVID-19. Disponivel em: nutritotal.com.br/pro, 2020.
  • Sanarmed. Avaliacao Nutricional do Paciente Grave e Equacao de Harris-Benedict. Disponivel em: sanarmed.com, 2024.
  • Silva SRJ et al. Gasto Energetico. In: Waitzberg DL. Nutricao Oral, Enteral e Parenteral na Pratica Clinica. Sao Paulo: Atheneu, 2018. p.315-326.
  • UFRJ - Laboratorio de Avaliacao Nutricional. Calorimetria Indireta. Rio de Janeiro: INJC/UFRJ, 2023.
  • IMeN. Perguntas mais frequentes em avaliacao nutricional. Disponivel em: nutricaoclinica.com.br.
  • Souza TR, Rodrigues DLM, Queiroz NP. Indicadores de qualidade em terapia nutricional enteral em UTI. Rev. Cient. Esc. Estadual Saude Publica Goias. 2023;9(9b5):1-14.
  • Silva JRP et al. Desmame da ventilacao mecanica - revisao de literatura. Brazilian Journal of Development. 2023;9(5):17200-17215.
  • Associacao de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Diretrizes Brasileiras de Ventilacao Mecanica 2013. Jornal Brasileiro de Pneumologia, Supl. 2013.
  • Righi NC et al. Efeito da posicao prona na mecanica respiratoria e nas trocas gasosas em pacientes com SDRA grave. Rev Med Minas Gerais. 2017.
Aviso clinico: Este conteudo tem fins exclusivamente educativos. As condutas descritas devem ser aplicadas por equipe multiprofissional habilitada (medico, nutricionista e fisioterapeuta) com avaliacao individualizada de cada paciente. Evelin Ribeiro Greco - Nutricao Clinica Hospitalar.