NPT vs NPP - Comparativo
ConceitovA nutricao parenteral (NP) e a administracao de nutrientes diretamente na corrente sanguinea por via intravenosa, indicada quando o trato gastrointestinal nao esta funcionante ou e insuficiente. Existem duas modalidades principais com indicacoes, vias e composicoes distintas.
NPT - Nutricao Parenteral Total
NPP - Nutricao Parenteral Periferica
Indicacoes e Quando Iniciar
FundamentalvA indicacao de nutricao parenteral deve ser precisa e baseada na impossibilidade real de uso do trato gastrointestinal. O timing de inicio e tao importante quanto a indicacao — iniciar precocemente sem indicacao gera complicacoes; iniciar tardio gera deficit nutricional.
Indicacoes da TNP
- TGI nao funcionante por qualquer causa
- Obstrucao intestinal mecanica sem resolucao prevista
- Ileo paralitico prolongado (mais de 7 dias)
- Fistula enterocutanea de alto debito sem possibilidade de sonda distal
- Sindrome do intestino curto grave
- Pancreatite aguda grave com intolerancia enteral
- Pos-operatorio com anastomoses de alto risco (avaliacao individual)
- Falencia intestinal cronica (TNP domiciliar)
Contraindicacoes da TNP
- TGI funcionante - TNE sempre preferivel
- Instabilidade hemodinamica grave nao controlada
- Choque septico em fase inicial
- Disturbios metabolicos graves nao corrigidos
- Hiperglicemia nao controlada (acima de 300 mg/dL)
- Hipertrigliceridemia grave (acima de 400 mg/dL) para lipideos
- Expectativa de vida muito curta
Vias de Acesso para Nutricao Parenteral
AcessovA escolha da via depende da osmolaridade da solucao, duracao prevista e condicao clinica do paciente. Solucoes com osmolaridade acima de 900 mOsm/L so podem ser administradas por acesso central, pois causam lesao endotelial e flebite em veias perifericas.
| Via de Acesso | Localizacao | Indicacao | Vantagens | Complicacoes |
|---|---|---|---|---|
| Subclavea | Veia subclavea (infra ou supraclavicular) | NPT de longa duracao, UTI | Conforto, fixacao segura, baixo risco de infeccao | Pneumotorax, hemotorax (insercao), trombose |
| Jugular Interna | Veia jugular interna (regiao cervical) | NPT, urgencia, acesso rapido | Acesso facil, guiado por ultrassom | Desconforto, maior risco de infeccao, dificulta mobilizacao |
| PICC | Veia cubital ou basilica do braco, ponta em VCS | NPT prolongada, domiciliar | Insercao a beira leito, menor risco de pneumotorax, longa duracao | Trombose venosa, maior risco de infeccao que subclavea |
| Femoral | Veia femoral (regiao inguinal) | Urgencia quando outros acessos indisponiveis | Acesso rapido em emergencia | Alto risco de infeccao, trombose, limita deambulacao |
| Periferica (NPP) | Veia periferica do antebraco ou dorso da mao | NPP de curto prazo (ate 14 dias) | Sem risco de pneumotorax, insercao simples | Flebite quimica, infiltracao, duracao limitada |
Composicao da Bolsa de NPT
PrescricaovA bolsa de NPT e uma solucao esteril preparada em farmacia hospitalar (manipulacao em cabine de fluxo laminar) contendo macronutrientes, eletrolitos e micronutrientes. A prescricao deve ser individualizada e revisada diariamente conforme laboratorio e evolucao clinica.
| Componente | Fonte Habitual | Meta por dia | Observacao |
|---|---|---|---|
| Aminoacidos (proteina) | Solucao de AA 10% | 1,2-2,0 g/kg/dia 4 kcal/g | Calcular primeiro. Obeso: usar peso ideal. |
| Glicose (carboidrato) | Glicose 50% | 3-5 g/kg/dia 4 kcal/g · TIG max 5 mg/kg/min | Representa 45-60% do VET. Limite: 7 g/kg/dia. |
| Lipideos | Emulsao lipidica 20% | 1-2 g/kg/dia 9 kcal/g · max 0,1 g/kg/h | 20-35% do VET. Suspender se TG acima de 400 mg/dL. |
| Sodio | NaCl 20% | 1-2 mEq/kg/dia | Descontar Na+ carreado pelo fosfato de sodio. |
| Potassio | KCl 19,1% | 1-2 mEq/kg/dia | Descontar K+ carreado pelo fosfato de potassio. |
| Fosforo | Fosfato de K+ ou glicerofosfato de Na+ | 20-40 mmol/dia | Calcular primeiro. Prioridade na sindrome de realimentacao. |
| Calcio | Gluconato de calcio 10% | 10-15 mEq/dia | Nao misturar diretamente com fosfato - risco de precipitacao. |
| Magnesio | Sulfato de magnesio 50% | 8-20 mEq/dia | Monitorar em IRA e sindrome de realimentacao. |
| Multivitaminico | Ampola padrao institucional | 1 ampola/dia | Verificar composicao e dose de tiamina. |
| Oligoelementos | Ampola padrao institucional | 1 ampola/dia | Zinco aumentado em queimados e diarreia grave. |
Monitoramento do Paciente em TNP
RotinavO monitoramento da TNP e mais intenso que o da TNE por conta das complicacoes metabolicas frequentes e do risco infeccioso do acesso central. A avaliacao diaria do laboratorio e obrigatoria nas primeiras 48-72 horas.
Monitoramento Diario
- Glicemia capilar a cada 4-6h nas primeiras 48h
- Eletrolitos: sodio, potassio, fosforo, magnesio, calcio
- Balanco hidrico rigoroso
- Peso corporal diario
- Sinais vitais e temperatura
- Inspecao do sitio de insercao do cateter
- Volume infundido vs. prescrito
- Sinais de intolerancia: edema, hiperglicemia, febre
- Ureia e creatinina nas primeiras 48h
Monitoramento Semanal
- Triglicerideos (antes da infusao lipidica)
- Funcao hepatica: TGO, TGP, FA, GGT, bilirrubinas
- Hemograma completo
- Albumina e pre-albumina
- Revisao das metas calórico-proteicas
- Avaliacao de indicacao continuada da TNP
- Possibilidade de iniciar ou progredir TNE
- Revisao dos componentes da bolsa
Complicacoes Mecanicas
CatetervAs complicacoes mecanicas estao relacionadas ao processo de insercao e manutencao do cateter venoso central. A maioria ocorre no momento da insercao ou nas primeiras horas apos o procedimento.
Complicacoes Infecciosas
InfeccaovAs complicacoes infecciosas sao as mais temidas da TNP. A infeccao de corrente sanguinea relacionada ao cateter (ICSRC) e a principal, com mortalidade significativa. Os germes mais frequentes sao estafilococos coagulase-negativos, S. aureus, enterococos e Candida sp. (Medway, 2022; Scielo, 2009)
Conduta: avaliar remocao do cateter (obrigatorio em Candida, S. aureus e instabilidade clinica). Antibioticoterapia empirica e ajustada por antibiograma.
Complicacoes Metabolicas
MetabolismovAs complicacoes metabolicas sao as mais frequentes da TNP e, em sua maioria, preveniveis com prescricao adequada e monitoramento rigoroso. A hiperglicemia e a mais comum, seguida pela hipertrigliceridemia e as alteracoes hepaticas.
Conduta: prescrever tiamina IV 100-300 mg antes de iniciar NPT. Iniciar com 50% da meta calorica. Progredir lentamente em 5-7 dias. Monitorar fosforo, potassio e magnesio diariamente. Repor eletrolitos agressivamente quando necessario.
Desmame da TNP e Transicao para TNE ou Via Oral
TransicaovA transicao da TNP para TNE ou via oral deve ser gradual e criteriosamente monitorada. O objetivo e garantir adequacao nutricional durante todo o processo de transicao, sem deficit calórico-proteico.
| Criterio para iniciar transicao | Conduta |
|---|---|
| TGI voltando a funcionar (ruidositos, flatos, evacuacao) | Iniciar TNE em volumes minimos (trofismo intestinal) |
| TNE atingindo 25-50% das metas | Reduzir TNP em 25-50% proporcionalmente |
| TNE atingindo 60-75% das metas | Reduzir TNP para 25-30% ou suspender |
| TNE ou oral atingindo 80% ou mais das metas | Suspender TNP completamente |
| Intolerancia a TNE apos tentativa | Manter TNP e reavaliar TGI em 24-48h |
Referências Bibliográficas
- BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Critico Adulto. BRASPEN Journal, 2023.
- ASPEN. Critical Care Nutrition Guidelines. Journal of Parenteral and Enteral Nutrition, 2022.
- Singer P et al. ESPEN guideline on clinical nutrition in the intensive care unit. Clinical Nutrition, 2023. DOI: 10.1016/j.clnu.2023.01.011
- Casaer MP et al. Early versus Late Parenteral Nutrition in Critically Ill Adults. NEJM. 2011;365(6):506-517. DOI: 10.1056/NEJMoa1102662
- Heidegger CP et al. Optimisation of energy provision with supplemental parenteral nutrition in critically ill patients (SPN). Lancet. 2013;381(9864):385-393. DOI: 10.1016/S0140-6736(12)61351-8
- Tallarico RT et al. Terapia nutricional parenteral domiciliar: perfil epidemiologico e prevalencia das principais complicacoes. BRASPEN Journal, v.34, n.4, p.408-413, 2019. DOI: 10.37111/braspenj.2019344017
- Medway. Complicacoes da nutricao parenteral: saiba mais! Disponivel em: medway.com.br, 2022.
- Beghetto MG et al. Nutricao parenteral em pacientes com cateter venoso central: frequencia de infeccao. SciELO Brazil, 2009.
- BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. BRASPEN Journal, v.36, n.3, 2021.
- ANVISA. Medidas de Prevencao de Infeccao Relacionada a Assistencia a Saude. Brasilia: ANVISA, 2017.
- CDC HICPAC. Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-Related Infections. Atlanta: CDC, 2011.