Uma das dúvidas mais frequentes na prática de nutrição renal é essa: quanto de proteína oferecer para o paciente em hemodiálise? A resposta mudou bastante ao longo dos anos — e a Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente com Doença Renal, publicada em 2021 em parceria com a SBN e a ASBRAN, traz a recomendação mais atual para o contexto brasileiro.

Este artigo resume os pontos essenciais da diretriz com foco na oferta proteica, comparando as diferentes fases da DRC e explicando como aplicar esses números na prática clínica hospitalar.

Por que a proteína é tão debatida na DRC

A proteína ocupa uma posição paradoxal na doença renal crônica. Na fase conservadora — antes da diálise — a restrição proteica é uma das ferramentas para retardar a progressão da doença, já que a metabolização proteica gera produtos nitrogenados que sobrecarregam os rins comprometidos.

Quando o paciente inicia a hemodiálise, esse cenário se inverte. A sessão de hemodiálise provoca perdas proteicas significativas: estima-se que cada sessão resulte em perda de 6 a 12 g de aminoácidos pelo dialisato, além de aumentar o catabolismo proteico durante o procedimento. Manter restrição proteica nesse contexto acelera a desnutrição — que afeta entre 18% e 75% dos pacientes em diálise dependendo da população estudada.

Contexto clínico relevante A desnutrição em pacientes em hemodiálise está associada a maior mortalidade, maior número de hospitalizações e pior qualidade de vida. Segundo a Diretriz BRASPEN (2021), o estado nutricional tem papel fundamental nos desfechos clínicos dessa população, e a desnutrição deve ser rastreada rotineiramente com o MST e diagnosticada com a SGA tradicional.

O que diz a BRASPEN 2021 por fase

A diretriz diferencia claramente as recomendações proteicas conforme o estágio da DRC e a modalidade de terapia renal substitutiva. A tabela abaixo consolida as principais recomendações:

Fase / Modalidade Proteína (g/kg/dia) Energia (kcal/kg/dia) Observação
DRC estágios 3–5 (conservador) 0,6–0,8 25–35 Valor mais baixo para preservação da função renal sem risco nutricional
DRC estágio 5 em hemodiálise (HD) 1,2 30–35 Compensar perdas pelo dialisato e catabolismo da sessão
DRC estágio 5 em diálise peritoneal (DP) 1,2–1,3 25–35 (descontar calorias do dialisato) Perdas proteicas pela membrana peritoneal são maiores que na HD
DRC com hipercatabolismo
(infecção, inflamação ativa, reabilitação)
Acima de 1,2
(individualizar)
30–35 Sem teto definido; avaliar tolerância e comorbidades

Fonte: Zambelli CMSF et al. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente com Doença Renal. BRASPEN J. 2021;36(2o Supl 2):2-22. DOI: 10.37111/braspenj.diretrizRENAL

Ponto-chave da BRASPEN 2021 A recomendação de 1,2 g/kg/dia para pacientes em hemodiálise está alinhada com a KDOQI 2020 (Kidney Disease Outcomes Quality Initiative), que estabelece o mesmo valor para pacientes metabolicamente estáveis em HD. A BRASPEN reforça que esse valor pode ser aumentado em situações de hipercatabolismo, sem definir um limite superior fixo.

Como calcular na prática

A primeira decisão é qual peso usar como referência. A BRASPEN recomenda o uso do peso seco — aquele que o paciente apresenta logo após a sessão de hemodiálise, sem excesso de líquido retido. Para pacientes com peso seco dentro da faixa de IMC adequada (18,5–24,9 kg/m²), o peso seco atual é a referência.

Em dois cenários específicos o cálculo é diferente:

  • Paciente com baixo peso (IMC < 18,5 kg/m²): usar o peso ideal (calculado pelo IMC 22 kg/m² para adultos) para não subestimar as necessidades.
  • Paciente com obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²): usar peso ajustado — Peso Ideal + 0,25 × (Peso Atual − Peso Ideal) — para não superestimar a oferta.

Exemplo prático

Paciente em hemodiálise, 58 anos. Peso seco: 65 kg. IMC: 23,2 kg/m². Sem infecção ativa ou inflamação.

CálculoResultado
Necessidade proteica (1,2 g/kg/dia × 65 kg)78 g de proteína/dia
Necessidade energética (30 kcal/kg/dia × 65 kg)1.950 kcal/dia
Necessidade energética (35 kcal/kg/dia × 65 kg)2.275 kcal/dia

A meta energética de 30–35 kcal/kg/dia é ajustada conforme idade, nível de atividade física e presença de inflamação. Em pacientes acima de 60 anos sedentários, o limite inferior (30 kcal/kg/dia) costuma ser a referência inicial.

Armadilhas comuns no dia a dia

Três erros aparecem com frequência na prática clínica ao aplicar as recomendações proteicas na DRC em hemodiálise:

1. Manter a restrição da fase conservadora após o início da diálise. É o erro mais comum. O paciente inicia HD, mas a restrição de 0,6–0,8 g/kg/dia da fase conservadora é mantida por inércia. Isso acelera a perda de massa muscular. A BRASPEN é explícita: ao iniciar HD, a recomendação sobe para 1,2 g/kg/dia.

2. Usar o peso pós-diálise com edema residual. O peso registrado após a sessão ainda pode incluir líquido retido se o paciente não atingiu o peso seco ideal. Usar esse valor superestima o denominador do cálculo e subestima a oferta proteica real necessária.

3. Não ajustar em hipercatabolismo. Paciente em HD internado por infecção ou com inflamação ativa tem necessidades proteicas acima de 1,2 g/kg/dia. A diretriz não define um teto nesse cenário — a conduta deve ser individualizada e monitorada com marcadores como albumina, pré-albumina e força de preensão palmar.

Atenção clínica A albumina sérica, embora amplamente usada, é um marcador tardio e influenciado pela inflamação e pelo estado de hidratação. Valores baixos de albumina em pacientes renais nem sempre refletem desnutrição proteica isolada. A avaliação nutricional completa com a SGA tradicional é o instrumento recomendado pela BRASPEN (2021) para diagnosticar desnutrição nessa população.

Para calcular as necessidades energéticas e proteicas de forma interativa, acesse a Calculadora de Necessidades Energéticas do NutriHospitalar. Para revisar a triagem nutricional antes de definir a conduta, consulte o protocolo NRS-2002.