Hiperglicemia no hospital não é problema só de quem tem diabetes. O estresse da doença, os corticoides e a própria terapia nutricional elevam a glicemia — e o descontrole se associa a mais infecções, pior cicatrização e maior mortalidade. Controlar bem, sem cair na hipoglicemia, é trabalho de equipe: a nutrição ajusta a oferta e a fórmula; a equipe médica conduz a insulina.
1. O que é hiperglicemia hospitalar
É a glicemia acima de 140 mg/dL no paciente internado, independentemente de diagnóstico prévio de diabetes. É muito prevalente na terapia nutricional: até 30% dos pacientes em nutrição enteral e mais de 50% em nutrição parenteral.
2. Por que importa
A hiperglicemia persistente prejudica a função imune e a cicatrização, aumenta o risco de infecção (inclusive de cateter e de ferida cirúrgica) e se associa a piores desfechos. Ao mesmo tempo, o controle excessivamente rígido aumenta o risco de hipoglicemia grave. O alvo é o equilíbrio.
3. Metas glicêmicas
| Situação | Meta de glicemia |
|---|---|
| Paciente crítico (UTI) | 140–180 mg/dL |
| Paciente não crítico | ~100–180 mg/dL (pré-prandial < 140 · aleatória < 180) |
| Evitar | Hipoglicemia (< 70 mg/dL) e controle muito estrito |
(Diretriz SBD 2025; ASPEN; AACE/ADA)
4. Monitorização na TNE e TNP
- Nutrição enteral ou parenteral: glicemia capilar a cada 4–6 horas.
- Paciente crítico / instável: individualizar — pode ser a cada 2 horas (bem controlado) ou a cada 30 minutos (instabilidade / risco de hipoglicemia).
- Registrar em relação ao horário e ao esquema da dieta (contínua × intermitente) — isso guia o ajuste da insulina.
5. Conduta nutricional
Aqui está o papel central do nutricionista:
- Evitar a hiperalimentação: excesso de calorias e de carboidrato é gatilho direto de hiperglicemia. Ajuste a meta calórica (habitualmente 25–35 kcal/kg/dia, individualizada).
- Fórmula para diabetes: menor proporção de carboidrato (~33–40% do VET), mais gordura monoinsaturada e fibra, com carboidratos de absorção mais lenta.
- Carboidrato mínimo: não zerar — manter pelo menos ~130–200 g/dia para evitar cetose e catabolismo.
- Infusão contínua na TNE tende a dar glicemia mais estável que o bolus.
- Na parenteral, cuidado com a taxa de infusão de glicose (TIG) — reveja a Calculadora de NPT.
6. O tratamento é insulina
No hospital, a hiperglicemia é tratada com insulina, não com antidiabéticos orais (que costumam ser suspensos na internação). O esquema habitual é basal-bolus com escala de correção, com bolus de insulina rápida a cada 4–6 horas em dieta contínua. Na parenteral, a insulina pode ser adicionada à bolsa (relação insulina:glicose de ~1:20 a 1:15), com correções subcutâneas. O ajuste é feito a cada 24–48h.
7. O outro perigo: hipoglicemia
8. Exemplo prático
Paciente: homem, 64 anos, DM2, enfermaria, sonda nasoenteral com fórmula padrão em bolus. Glicemias entre 220–260 mg/dL.
| Ação | Conduta |
|---|---|
| Nutricional | Trocar para fórmula para diabetes (menos CHO, mais MUFA/fibra) em infusão contínua; revisar meta calórica (evitar hiperalimentação) |
| Monitorização | Glicemia capilar a cada 4–6h, registrada em relação à dieta |
| Medicamentoso (equipe médica) | Suspender antidiabético oral; iniciar insulina basal-bolus com correção |
| Segurança | Plano combinado para pausas de dieta (avisar → ajustar insulina/soro) |
9. Erros comuns
- Hiperalimentar — mais caloria/CHO do que o necessário piora a glicemia.
- Zerar o carboidrato — leva a cetose e catabolismo; mantenha o mínimo.
- Manter bolus quando a infusão contínua daria glicemia mais estável.
- Não comunicar a pausa da dieta — principal causa de hipoglicemia.
- Insistir em antidiabético oral na internação — o padrão é insulina.