Progressão Calórico-Proteica por Fases
Energia e Proteína ⌄A oferta calórica e proteica deve ser progressiva, respeitando as fases da doença crítica. Não iniciar com a meta total — a oferta excessiva nas primeiras 48–72h aumenta complicações metabólicas e infecciosas. (BRASPEN 2023; ESPEN 2023)
- Energia: 15–20 kcal/kg/dia
- Proteína: 1,0–1,2 g/kg/dia
- Hipocaloria permissiva intencional
- Priorizar estabilidade hemodinâmica
- Iniciar TNE em 24–48h se estável
- Energia: 20–25 kcal/kg/dia
- Proteína: 1,2–1,5 g/kg/dia
- Progressão gradual se tolerância adequada
- Monitorar glicemia, VRG e sinais de intolerância
- Avaliar necessidade de NPT suplementar
- Energia: 25–30 kcal/kg/dia
- Proteína: 1,3–2,0 g/kg/dia
- Meta nutricional plena atingida
- Foco em recuperação da massa magra
- Considerar transição para via oral
Progressão de Volume e Velocidade de Infusão
Volume ⌄A progressão de volume deve ser gradual, com avaliação de tolerância a cada 6–8 horas. O protocolo abaixo é para infusão contínua em bomba — ajustar conforme resposta clínica e tolerância gastrointestinal. (BRASPEN 2023; SciELO 2014)
| Período | Velocidade | Volume estimado / 24h | Conduta |
|---|---|---|---|
| Início (0–6h) | 10–20 mL/h | 240–480 mL | Avaliar tolerância. Verificar posicionamento da sonda. |
| 6–12h | 20–30 mL/h | 480–720 mL acumulado | Se tolerância boa: aumentar 10 mL/h a cada 6–8h. |
| 12–24h | 30–50 mL/h | 720–1.200 mL acumulado | Monitorar VRG, distensão e sinais de intolerância. |
| 24–48h | 50–80 mL/h | 1.200–1.920 mL | Progredir conforme tolerância e meta calórica. |
| Meta (48–72h) | 80–125 mL/h | 1.920–3.000 mL | Meta nutricional atingida. Manter e monitorar. |
Métodos de Administração da Dieta Enteral
Administração ⌄A escolha do método depende da via de acesso, condição clínica e fase da terapia. A infusão contínua em bomba é preferida em pacientes críticos pela maior segurança e controle. (BRASPEN Enfermagem 2021; RDC ANVISA 503/2021)
Contínua 24h em Bomba
Infusão de 25–125 mL/h de forma ininterrupta por 22–24 horas. Método de escolha em pacientes graves, com sonda pós-pilórica ou em fase inicial da TNE. Oferece maior controle da velocidade e menor risco de aspiração e diarreia osmótica. Irrigar a sonda com 20–30 mL de água a cada 6–8h.
Contínua Cíclica (10–16h/dia)
Infusão contínua por 10–16 horas, geralmente no período noturno. Permite deambulação e fisioterapia durante o dia. Indicada na fase de transição entre TNE e via oral, ou em pacientes em recuperação. Volume e velocidade ajustados para atingir a meta no período de infusão.
Intermitente Gravitacional
Administração de 200–300 mL por gotejamento gravitacional a cada 4–6 horas, durante 30–60 minutos. Indicada para pacientes com acesso gástrico, clinicamente estáveis. Irrigar a sonda com 20–30 mL de água após cada infusão. Velocidade máxima: 140 gotas por minuto.
Bolus com Seringa
Administração de 100–300 mL com seringa por injeção lenta (2–6 minutos), a cada 3–6 horas. Exclusivo para acesso gástrico — contraindicado no jejuno. Indicado em pacientes estáveis com bom esvaziamento gástrico. Irrigar a sonda com 20 mL de água após cada administração.
Monitoramento e Avaliação de Tolerância
Monitoramento ⌄O monitoramento da TNE deve ser diário nas primeiras 72h e posteriormente conforme evolução clínica. A avaliação de tolerância é obrigatória antes de cada progressão de volume. (BRASPEN 2023; RDC ANVISA 503/2021)
Sinais de Boa Tolerância
- Ausência de vômitos e náuseas
- VRG menor que 300 mL
- Ausência de distensão abdominal
- Ruídos hidroaéreos presentes
- Evacuação normal (1–3x/dia)
- Glicemia dentro da meta (140–180 mg/dL)
- Balanço hídrico controlado
Sinais de Intolerância — Acionar Equipe
- Vômitos ou regurgitação
- VRG acima de 300–500 mL
- Distensão abdominal progressiva
- Diarreia (mais de 3 episódios/dia ou mais de 200 mL/episódio)
- Dor abdominal intensa
- Hiperglicemia persistente (acima de 180 mg/dL)
- Hipotensão ou instabilidade hemodinâmica
| Parâmetro | Frequência | Meta |
|---|---|---|
| Glicemia capilar | A cada 4–6h nas primeiras 48h; depois 2x/dia | 140–180 mg/dL (paciente crítico) |
| Volume residual gástrico (VRG) | A cada 6h por sonda pré-pilórica | Menor que 300 mL — continuar; 300–500 mL — reduzir e usar procinético; acima de 500 mL — pausar |
| Balanço hídrico | Diário | Zero ou negativo em pacientes críticos |
| Peso corporal | Diário ou 3x/semana | Monitorar variações maiores que 1 kg/dia (edema) |
| Eletrolitos (Na, K, P, Mg) | Diário nas primeiras 72h | Dentro dos valores de referência; atenção ao fosforo |
| Adequação da oferta (kcal e proteína) | Diário | Meta maior ou igual a 80% nas primeiras 72h |
| Inspeção da sonda e fixação | A cada turno de enfermagem | Sonda posicionada e fixada corretamente |
Critérios para Transição da TNE para Via Oral
Transição ⌄A transição da TNE para a via oral deve ser gradual e monitorada, garantindo que a oferta calórico-proteica não seja comprometida durante o processo. Nunca suspender abruptamente a TNE sem confirmar que a via oral está suprindo as necessidades. (BRASPEN 2023)
| Critério para iniciar transição | Conduta |
|---|---|
| Paciente consciente, orientado e com reflexo de deglutição preservado | Solicitar avaliação de disfagia pela fonoaudiologia antes de liberar via oral |
| Ingestão oral atingindo 25–50% das metas | Reduzir TNE em 25–50% proporcionalmente. Manter sonda posicionada. |
| Ingestão oral atingindo 50–75% das metas | Reduzir TNE para 25–30% ou converter para cíclica noturna |
| Ingestão oral atingindo 75–80% ou mais das metas | Suspender TNE. Manter monitoramento da ingestão por 24–48h antes de retirar a sonda. |
| Intolerância à via oral após tentativa (disfagia grave, vômitos, recusa) | Manter TNE e reavaliar em 24–48h. Considerar gastrostomia se TNE prolongada (mais de 4–6 semanas). |
Complicações e Conduta
Complicações ⌄As complicações da TNE são frequentes e, em sua maioria, preveníveis com protocolo adequado e monitoramento rigoroso. A identificação precoce e a conduta imediata são fundamentais para evitar interrupções prolongadas da terapia.
Referências Bibliográficas
- Castro MG, Ribeiro PC, Matos LBN, et al. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN Journal. 2023;38(2 Supl 2). DOI: 10.37111/braspenj.diretrizDOENTEGRAVE
- Singer P, Blaser AR, Berger MM, et al. ESPEN practical and partially revised guideline: Clinical nutrition in the intensive care unit. Clinical Nutrition. 2023;42(9):1671-1689. DOI: 10.1016/j.clnu.2023.07.011
- BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. BRASPEN Journal. 2021;36(3). Disponível em: braspen.org
- ANVISA. RDC n.º 503, de 27 de maio de 2021. Dispõe sobre os requisitos sanitários para a Terapia de Nutrição Enteral. Brasília: ANVISA, 2021.
- Ministério da Saúde. Manual de Terapia Nutricional na Atenção Especializada Hospitalar no âmbito do SUS. Brasília: MS, 2016.
- Beghetto MG et al. Terapia Nutricional Enteral em Unidade de Terapia Intensiva: Infusão versus Necessidades. Rev Bras Ter Intensiva. 2006;18(4):331-337. SciELO.
- Compher C, Bingham AL, McCall M, et al. Guidelines for the provision of nutrition support therapy in the adult critically ill patient: ASPEN. JPEN. 2022;46(1):12-41. DOI: 10.1002/jpen.2267