"Jejum a partir da meia-noite" é uma frase que ainda ecoa nos corredores — e está desatualizada. O jejum prolongado antes da cirurgia não protege o paciente; pelo contrário, aumenta o desconforto e o estresse metabólico. As diretrizes atuais e o protocolo brasileiro ACERTO recomendam abreviar o jejum com segurança, inclusive com uma bebida de carboidrato até 2 horas antes.
1. Por que o jejum prolongado faz mal
Chegar à cirurgia após 10–12 horas de jejum joga o paciente num estado catabólico: resistência à insulina aumentada, depleção de glicogênio, mais fome, sede, ansiedade e náusea. A resistência insulínica peri-operatória se associa a mais complicações e recuperação mais lenta. Abreviar o jejum atenua justamente esse estresse.
2. Os tempos atuais de jejum
| Tipo de alimento | Jejum mínimo antes da cirurgia |
|---|---|
| Líquidos claros (inclui bebida com maltodextrina) | 2 horas |
| Leite materno (lactentes) | 4 horas |
| Refeição leve / leite não humano / fórmula | 6 horas |
| Refeição pesada, gordurosa ou carne | 8 horas |
O ACERTO resume a prática: líquidos claros até 2h e sólidos até 6h antes do procedimento eletivo.
3. O que é "líquido claro"
São líquidos sem resíduo e sem gordura, através dos quais é possível enxergar: água, chá e café sem leite, sucos de fruta sem polpa, bebidas carbonatadas e a bebida com maltodextrina. Leite e bebidas com polpa/gordura não são líquidos claros e seguem a regra de 6 horas.
4. A bebida de carboidrato (maltodextrina 12,5%)
A oferta de carboidrato antes da operação prepara o metabolismo: reduz a resistência insulínica, melhora o controle glicêmico pós-operatório e diminui fome, sede e ansiedade. É segura e não aumentou o risco anestésico nos estudos. (Aguilar-Nascimento — ACERTO; SciELO/RBA)
🩺 Leia também: Imunonutrição perioperatória → Arginina, glutamina e ômega-3 antes e depois da cirurgia — quando e para quem.5. O que é ACERTO / ERAS
ACERTO = "Aceleração da Recuperação Total Pós-operatória", o protocolo multimodal brasileiro alinhado ao ERAS (Enhanced Recovery After Surgery). Não é só o jejum: reúne várias medidas peri-operatórias baseadas em evidência — abreviação do jejum, carga de carboidrato, realimentação precoce no pós-operatório, controle de náusea/dor, mobilização precoce, uso racional de sondas e drenos. A nutrição é uma das peças centrais.
6. Benefícios comprovados
- Menor resistência insulínica e melhor controle glicêmico pós-operatório.
- Menos fome, sede, ansiedade, fraqueza e náusea.
- Melhor conforto e satisfação do paciente.
- Associação com menor tempo de internação e recuperação mais rápida.
- Sem aumento do risco de aspiração/broncoaspiração.
7. Contraindicações e cautelas
8. O papel do nutricionista
O nutricionista protagoniza a implementação: padroniza a bebida de carboidrato, orienta a equipe e o paciente, garante a realimentação precoce no pós-operatório e monitora tolerância e glicemia. A adesão ao protocolo depende de educação de toda a equipe — enfermagem, anestesia e cirurgia.
9. Erros comuns
- Manter "jejum desde a meia-noite" por hábito — sem base atual.
- Suspender líquidos claros cedo demais — eles são liberados até 2h.
- Confundir leite com líquido claro — leite segue a regra de 6h.
- Esquecer a realimentação precoce no pós-operatório — parte do mesmo protocolo.
- Aplicar a bebida de carboidrato sem checar contraindicações.