A sarcopenia é subdiagnosticada no ambiente hospitalar — e isso tem consequências diretas sobre desfechos clínicos. Pacientes sarcopênicos internados têm maior risco de complicações pós-operatórias, tempo de internação prolongado, maior taxa de reinternação e mortalidade elevada. Apesar disso, a triagem sistemática ainda não é parte da rotina da maioria dos serviços de nutrição no Brasil.

Este artigo apresenta os critérios diagnósticos atualizados do EWGSOP2, as ferramentas aplicáveis à beira do leito e a conduta nutricional baseada nas diretrizes BRASPEN e ESPEN.

Por que a sarcopenia importa no hospital

A sarcopenia é formalmente reconhecida como uma doença muscular desde 2016, com código CID-10 M62.84. O conceito atual, definido pelo consenso EWGSOP2 (Cruz-Jentoft et al., 2019), vai além da simples perda de massa muscular: sarcopenia é a combinação de baixa força muscular com baixa quantidade ou qualidade muscular, com ou sem comprometimento do desempenho físico.

No contexto hospitalar, a perda muscular se acelera por múltiplos fatores simultâneos: imobilidade, jejum pré e pós-procedimentos, catabolismo pela doença de base, inflamação sistêmica e ingestão proteica insuficiente. Estudos mostram que pacientes perdem entre 1% e 5% da massa muscular esquelética por dia de imobilização em UTI — um ritmo muito superior ao que ocorre no envelhecimento fisiológico.

Sarcopenia oculta — o risco em pacientes com sobrepeso Pacientes com IMC normal ou elevado podem ter sarcopenia grave sem que isso seja evidente clinicamente. A perda de massa muscular pode ser mascarada por excesso de tecido adiposo — condição chamada obesidade sarcopênica. O IMC isolado não detecta esse quadro. A circunferência de panturrilha e a força de preensão palmar são mais sensíveis para essa população.

Critérios diagnósticos: EWGSOP2

O consenso EWGSOP2, publicado em 2019, introduziu uma mudança importante em relação ao consenso anterior de 2010: a força muscular passou a ser o critério primário para triagem, e não mais a massa muscular. A justificativa é que a força prediz melhor os desfechos clínicos adversos do que a quantidade de músculo isoladamente.

O algoritmo diagnóstico segue três etapas:

Etapa Avaliação Ponto de corte (EWGSOP2) Resultado
1. Triagem SARC-F (questionário) ou força de preensão palmar SARC-F ≥ 4 pontos Provável sarcopenia — iniciar intervenção
2. Confirmação Massa muscular (CP, BIA, DXA ou TC) CP < 31 cm (ambos os sexos)
ou BIA/DXA abaixo do ponto de corte
Sarcopenia confirmada
3. Gravidade Desempenho físico (velocidade de marcha, SPPB ou TUG) Velocidade de marcha < 0,8 m/s
SPPB ≤ 8 pontos
TUG > 20 segundos
Sarcopenia grave

Fonte: Cruz-Jentoft AJ et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age Ageing. 2019;48(1):16-31. DOI: 10.1093/ageing/afy169

Os pontos de corte de força de preensão palmar recomendados pelo EWGSOP2 são < 27 kg para homens e < 16 kg para mulheres. Pesquisadores brasileiros têm apontado que esses valores podem subestimar a prevalência de sarcopenia na população nacional, sendo estudados pontos de corte mais altos (< 36 kg para homens e < 23 kg para mulheres) que identificam melhor o risco de mortalidade.

Importante: a intervenção não espera a confirmação Segundo o EWGSOP2, a intervenção nutricional e de exercício deve ser iniciada assim que a triagem identifica provável sarcopenia — sem esperar os exames de confirmação de massa muscular, que muitas vezes não estão disponíveis na rotina hospitalar. Em ambiente de internação, agir na triagem positiva é a conduta mais efetiva.

Ferramentas de triagem à beira do leito

O contexto hospitalar impõe limitações práticas: pacientes acamados, sedados, com edema ou restrição de mobilidade. As ferramentas abaixo são aplicáveis nesse cenário, do mais simples ao mais específico:

SARC-F

Questionário de 5 perguntas que avalia força, auxílio para caminhar, levantar de uma cadeira, subir escadas e quedas. Cada resposta vale 0, 1 ou 2 pontos. Score ≥ 4 indica provável sarcopenia. Apresenta alta especificidade e especialmente útil em pacientes que conseguem responder perguntas. Pode ser aplicado em menos de 2 minutos.

SARC-CalF

Versão aprimorada do SARC-F que adiciona a circunferência de panturrilha (CP) ao questionário. A CP é medida no ponto de maior circunferência da panturrilha, sem compressão, com o paciente sentado e joelho a 90°. CP < 31 cm soma 10 pontos ao SARC-F, aumentando a sensibilidade diagnóstica — especialmente útil em pacientes idosos hospitalizados com dificuldade de avaliar marcha ou desempenho físico.

Força de preensão palmar (dinamometria)

Medida com dinamômetro hidráulico, preferencialmente no membro dominante, com o paciente sentado e cotovelo a 90°. É o método mais diretamente ligado aos desfechos clínicos — força baixa prediz maior mortalidade, mais complicações pós-operatórias e maior tempo de internação. Aplicável à beira do leito em pacientes colaborativos.

Circunferência de panturrilha isolada

Em pacientes sem condições de responder o SARC-F ou realizar dinamometria (sedados, confusos, acamados), a CP abaixo de 31 cm já é suficiente para indicar suspeita de depleção muscular e iniciar intervenção nutricional. É o método mais simples e acessível disponível.

Ferramenta Tempo de aplicação Aplicável em paciente acamado? Melhor uso
SARC-F < 2 min Sim (se colaborativo) Triagem inicial em qualquer paciente
SARC-CalF 2–3 min Sim Maior sensibilidade em idosos hospitalizados
Dinamometria 3–5 min Parcialmente (se conseguir segurar o aparelho) Confirmação e monitoramento de resposta
Circunferência de panturrilha < 1 min Sim Pacientes sem colaboração para outros testes
BIA / DXA / TC Variável Depende do equipamento Confirmação diagnóstica formal (pesquisa e casos específicos)

Fonte: Cruz-Jentoft AJ et al. EWGSOP2. Age Ageing. 2019. DOI: 10.1093/ageing/afy169

Conduta nutricional

A abordagem nutricional da sarcopenia no hospital é multimodal: a oferta proteica adequada é o componente mais crítico, mas precisa ser combinada com mobilização precoce quando clinicamente possível.

Oferta proteica

A ESPEN (2018) e a Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Envelhecimento (2019) recomendam 1,2 a 1,5 g/kg/dia de proteína para pacientes com sarcopenia ou em risco. Em pacientes com doença aguda grave ou hipercatabolismo, a oferta pode chegar a 2,0 g/kg/dia, desde que a função renal seja monitorada.

A distribuição proteica ao longo do dia também importa: estudos mostram que distribuir a oferta em 3 a 4 refeições com pelo menos 25–30 g de proteína por refeição maximiza a síntese proteica muscular — padrão mais eficiente do que concentrar a maior parte da proteína em uma única refeição.

Leucina e BCAA

A leucina é o aminoácido com maior capacidade de estimular a síntese proteica muscular via ativação do complexo mTORC1. Fontes ricas incluem carnes magras, ovos, laticínios e leguminosas. A suplementação isolada de leucina ou BCAA pode ser considerada em pacientes com ingestão proteica inadequada, mas não substitui o aporte proteico total adequado.

Energia

A oferta calórica adequada é condição necessária para que a proteína seja aproveitada para síntese muscular — e não oxidada como fonte de energia. A meta é 25 a 30 kcal/kg/dia para a maioria dos pacientes hospitalizados, ajustada conforme o estado metabólico. Para a calculadora interativa de necessidades energéticas, acesse a ferramenta disponível no NutriHospitalar.

Vitamina D

A deficiência de vitamina D é comum em pacientes hospitalizados e está associada à piora da função muscular. A ESPEN recomenda monitoramento dos níveis séricos de 25(OH)D e suplementação quando necessário — sem definir dose universal, pois a reposição deve ser guiada pelo resultado laboratorial e pela causa da deficiência.

Componente Recomendação Observação
Proteína 1,2–1,5 g/kg/dia
(até 2,0 g/kg/dia em hipercatabolismo)
Distribuir em 3–4 refeições com ≥ 25 g por refeição
Energia 25–30 kcal/kg/dia Suficiente para poupar proteína da oxidação
Leucina / BCAA Garantir fontes ricas na dieta Suplementação se ingestão total inadequada
Vitamina D Monitorar 25(OH)D; suplementar se deficiente Dose guiada por exame laboratorial
Exercício Mobilização precoce + resistência quando possível Componente essencial — potencializa a resposta proteica

Fonte: Cruz-Jentoft AJ et al. EWGSOP2, 2019 | Cederholm T et al. ESPEN guidelines on definitions and terminology of clinical nutrition. Clin Nutr. 2017. DOI: 10.1016/j.clnu.2016.09.004

Atenção em pacientes renais A oferta proteica elevada (acima de 1,2 g/kg/dia) para combater a sarcopenia precisa ser ajustada em pacientes com doença renal crônica na fase conservadora (sem diálise). Nesses casos, o benefício muscular precisa ser ponderado contra o risco de progressão da doença renal. Consulte as recomendações específicas no artigo Recomendações de proteína para DRC em hemodiálise.

Para uma avaliação antropométrica completa, incluindo técnica de medida da circunferência de panturrilha e interpretação dos resultados, consulte a seção de Avaliação Antropométrica do NutriHospitalar.