A sonda é o "acesso" da nutrição enteral — e, como todo acesso, vive ou morre pelos cuidados de rotina. Boa parte das interrupções da dieta (e do déficit calórico que vem junto) nasce de problemas evitáveis: sonda entupida, deslocada ou mal posicionada. Este guia reúne, de forma prática, o que a equipe de nutrição e enfermagem precisa garantir todos os dias.
1. A sonda nasoenteral em 1 minuto
A sonda nasoenteral (SNE) entra pelo nariz e termina no estômago (posição gástrica) ou após o piloro, no duodeno/jejuno (posição pós-pilórica). São finas e flexíveis, com fio-guia para a passagem. A posição pós-pilórica é escolhida quando há alto risco de aspiração ou intolerância gástrica; a gástrica é mais fisiológica e permite infusão em bolus.
2. Confirmar o posicionamento — antes do primeiro uso
- Marque e registre a medida externa da sonda (cm na narina) após a confirmação — serve de referência para detectar deslocamento.
- Reavalie a cada plantão e antes de cada uso: se a marca mudou, houve tosse/vômito ou o paciente puxou a sonda, reconfirme antes de infundir.
- O pH do aspirado pode ajudar (ácido sugere posição gástrica), mas não substitui a imagem inicial.
3. Cabeceira elevada 30–45°
Manter a cabeceira do leito entre 30° e 45° durante a infusão e por cerca de 30–60 minutos depois é uma das medidas mais eficazes para reduzir refluxo e broncoaspiração. Só rebaixe para procedimentos estritamente necessários e retorne assim que possível.
4. Lavagem (flush) da sonda
A lavagem regular com água é a principal medida antiobstrução. Uma rotina segura:
| Momento | Conduta |
|---|---|
| Antes e depois da dieta | Lavar com 20–30 mL de água (ou conforme protocolo/restrição hídrica) |
| Infusão contínua | Lavar a cada 4–6 horas |
| Antes e depois de cada medicamento | Lavar com água; e lavar entre um medicamento e outro |
| Sonda em pausa | Lavar e manter fechada; reavaliar posicionamento antes de reabrir |
5. Medicamentos pela sonda
Administrar fármacos pela sonda exige técnica — é fonte comum de obstrução e de interações. Princípios:
- Prefira formas líquidas (solução/suspensão) quando existirem e forem apropriadas.
- Nunca triture comprimidos de liberação prolongada nem de revestimento entérico — perde-se a proteção e o controle de liberação.
- Um medicamento por vez, cada um bem diluído; lave a sonda entre eles e não misture fármacos entre si nem com a dieta.
- Cuidado com fármacos que interagem com a dieta (ex.: fenitoína, levotiroxina, quinolonas) — podem exigir pausa da dieta. Consulte Interações Droga-Nutriente e a farmácia clínica.
6. Prevenir e resolver obstrução
Prevenção é 90% do problema: lave sempre (seção 4) e administre medicamentos com técnica (seção 5). Se a sonda obstruir:
- Tente água morna com movimento suave de pressão e refluxo, usando seringa de maior calibre (gera menos pressão pontual).
- Não use refrigerante, suco de frutas ou triturados caseiros — pioram a obstrução.
- Persistindo, siga o protocolo institucional; pode ser necessária a troca da sonda.
7. Constipação na nutrição enteral
Menos comentada que a diarreia, a constipação é frequente na TNE prolongada — favorecida por imobilidade, baixa oferta de água e fibra, opioides e sedativos. Sinais: distensão, ausência de evacuação por vários dias, desconforto. Conduta:
- Revise a oferta hídrica — desidratação endurece as fezes (recalcule em Oferta Hídrica).
- Considere fórmula com fibras (solúvel + insolúvel), se não houver contraindicação.
- Mobilização precoce e revisão de medicamentos constipantes (opioides) com a equipe.
- Laxantes/protocolo intestinal conforme prescrição médica; excluir impactação/obstrução antes.
8. Complicações e conduta
| Complicação | Sinais | Conduta |
|---|---|---|
| Deslocamento / saída | Marca externa mudou, tosse, sonda exteriorizada | Suspender a dieta e reconfirmar posição antes de reusar |
| Obstrução | Resistência à infusão/lavagem | Água morna com seringa larga; protocolo; trocar se necessário |
| Broncoaspiração | Tosse, queda de saturação, febre | Parar a infusão, elevar cabeceira, acionar a equipe médica |
| Lesão nasal / de pressão | Dor, hiperemia, úlcera na asa do nariz | Rodízio de fixação, higiene, avaliar troca de narina |
| Intolerância gástrica | Distensão, náusea, vômito | Reavaliar velocidade/posição; discutir procinético ou via pós-pilórica |
9. Checklist diário
- ✔ Posição confirmada e marca externa conferida.
- ✔ Cabeceira 30–45° durante e após a infusão.
- ✔ Lavagens feitas (dieta, medicamentos, contínua) e somadas ao balanço.
- ✔ Medicamentos administrados com técnica e sem triturar o que não pode.
- ✔ Padrão intestinal avaliado (diarreia? constipação?).
- ✔ Fixação/higiene nasal e sinais de intolerância checados.
10. Erros comuns
- Confiar só na ausculta para confirmar a sonda — método não confiável.
- Não lavar a sonda entre medicamentos e dieta — receita para obstrução.
- Triturar liberação prolongada / entérico — perde eficácia e entope.
- Rebaixar a cabeceira e esquecer de reelevar — risco de aspiração.
- Esquecer os flushes no balanço hídrico — sobra ou falta água sem se perceber.
- Tratar toda diarreia como dieta e ignorar impactação com transbordamento.