Durante décadas, cada serviço diagnosticava desnutrição de um jeito — Avaliação Subjetiva Global (ASG), albumina, IMC isolado, critérios próprios. O resultado eram prevalências muito diferentes para o mesmo paciente. Em 2019, as principais sociedades de nutrição clínica do mundo (ESPEN, ASPEN, FELANPE, PENSA) publicaram o GLIM — Global Leadership Initiative on Malnutrition para padronizar o diagnóstico. Em 2025 saiu a atualização de 5 anos, refinando as orientações.
Este guia mostra o GLIM passo a passo, com os pontos de corte atuais, um exemplo prático e a calculadora interativa que aplica tudo automaticamente.
🧮 Calculadora GLIM interativa → Preencha os critérios e receba o diagnóstico e o estágio na hora — com IMC e % de perda calculados para você.1. O que é o GLIM e por que ele existe
O GLIM não é uma ferramenta de triagem — é o método de diagnóstico da desnutrição. A ideia central é simples e poderosa: para dizer que um paciente está desnutrido, é preciso demonstrar uma alteração no corpo (fenótipo) e uma causa que a explique (etiologia). Assim o diagnóstico deixa de depender de um único número e passa a ser reprodutível entre serviços e países.
2. Visão geral: as 2 etapas
| Etapa | O que fazer | Ferramenta |
|---|---|---|
| 1. Triagem | Identificar quem está em risco nutricional | NRS-2002, MUST, MNA-SF, MST |
| 2. Diagnóstico | Confirmar (≥1 fenotípico + ≥1 etiológico) e estadiar | Critérios GLIM |
Só se aplica o GLIM (etapa 2) em quem teve triagem positiva na etapa 1.
3. Etapa 1 — Triagem nutricional
Use uma ferramenta de triagem validada nas primeiras 24–48h de internação. As mais comuns no Brasil:
- NRS-2002 — recomendada pela ESPEN para adultos hospitalizados.
- MUST — prática, muito usada em ambulatório e comunidade.
- MAN / MNA-SF — específica para idosos.
Se a triagem for positiva (em risco), siga para o diagnóstico GLIM. Se for negativa, reavalie periodicamente — o GLIM não se aplica sem risco na triagem.
4. Etapa 2 — Critérios fenotípicos (3)
São as alterações observáveis no corpo. Basta um deles estar presente.
| Critério fenotípico | Ponto de corte para positividade |
|---|---|
| Perda de peso involuntária | > 5% em até 6 meses ou > 10% além de 6 meses |
| IMC baixo | < 20 kg/m² se < 70 anos · < 22 kg/m² se ≥ 70 anos (populações asiáticas: < 18,5 e < 20, respectivamente) |
| Massa muscular reduzida | Redução por método validado de composição corporal (ver seção 8) |
5. Etapa 2 — Critérios etiológicos (2)
São as causas que explicam a alteração fenotípica. Basta um deles estar presente.
| Critério etiológico | Quando considerar presente |
|---|---|
| Redução de ingestão ou assimilação | ≤ 50% da necessidade por > 1 semana; ou qualquer redução por > 2 semanas; ou condição gastrointestinal crônica que prejudique a absorção (ex.: má absorção, disfagia, vômitos, cirurgia GI) |
| Inflamação / carga de doença | Doença ou injúria aguda (sepse, trauma, grande cirurgia, queimadura) ou doença crônica (câncer, DPOC, DRC, insuficiência cardíaca, doença hepática) |
Na prática, a maioria dos pacientes hospitalizados preenche facilmente um critério etiológico — o eixo que costuma definir o diagnóstico é o fenotípico.
6. Fechando o diagnóstico
Se o paciente tem pelo menos um de cada eixo, o diagnóstico de desnutrição relacionada à doença está firmado. Um critério fenotípico sem etiológico (ou vice-versa) não fecha o diagnóstico pelo GLIM.
Não quer marcar critério por critério na mão? → A Calculadora GLIM aplica a regra "≥1 + ≥1", calcula IMC e % de perda e já entrega o estágio.7. Estadiamento: desnutrição moderada ou grave
Feito o diagnóstico, o grau de gravidade é definido pelos critérios fenotípicos (os etiológicos não entram no estadiamento). Vale o critério mais grave presente.
| Critério fenotípico | Estágio 1 — Moderada | Estágio 2 — Grave |
|---|---|---|
| Perda de peso | 5–10% em ≤ 6 meses (ou 10–20% além de 6 meses) | > 10% em ≤ 6 meses (ou > 20% além de 6 meses) |
| IMC baixo | < 20 (< 70 anos) < 22 (≥ 70 anos) | < 18,5 (< 70 anos) < 20 (≥ 70 anos) |
| Massa muscular | Déficit leve a moderado | Déficit grave |
8. Como avaliar a massa muscular
É o critério fenotípico mais trabalhoso, porque depende de método. A orientação do GLIM (guia ESPEN de 2022) segue uma hierarquia:
- Preferenciais (imagem): DXA (índice de massa muscular apendicular), TC ou RM ao nível de L3, ultrassom muscular.
- Alternativa: BIA (bioimpedância), com cautela quanto à hidratação.
- Quando não há imagem/BIA — antropometria: circunferência da panturrilha e circunferência muscular do braço (CMB) como proxies, interpretadas conforme a referência do método e da população.
O exame físico (perda de massa em têmporas, clavículas, quadríceps, panturrilha) complementa a avaliação. Veja também a Avaliação Antropométrica e a Calculadora de Índice Muscular.
9. Exemplo prático comentado
Paciente: mulher, 72 anos, câncer de esôfago, internada. Peso habitual 62 kg, peso atual 52 kg (perda de ~16% em cerca de 4 meses). Altura 1,60 m → IMC 20,3 kg/m². Refere ingestão < 50% do habitual há 3 semanas. Panturrilha reduzida ao exame.
| Passo | Avaliação | Resultado |
|---|---|---|
| Triagem | NRS-2002 aplicada | Positiva → segue ao GLIM |
| Fenotípico — perda de peso | 16% em ≤ 6 meses (> 10%) | Presente · grave |
| Fenotípico — IMC | 20,3 com 72 anos (corte < 22) | Presente · moderada |
| Fenotípico — massa muscular | Panturrilha reduzida | Presente |
| Etiológico — ingestão | < 50% há 3 semanas | Presente |
| Etiológico — inflamação | Câncer (doença crônica) | Presente |
Conclusão: ≥ 1 fenotípico + ≥ 1 etiológico → desnutrição confirmada. O critério fenotípico mais grave (perda > 10%) define Estágio 2 — desnutrição grave. Conduta: registrar o diagnóstico, definir metas caloproteicas, via de terapia e atenção ao risco de síndrome de realimentação.
Refaça este caso na calculadora → Digite os pesos, altura, idade e os critérios e compare o resultado.10. Erros comuns
- Pular a triagem — o GLIM pressupõe triagem positiva; não se diagnostica direto.
- Marcar só um eixo — fenotípico sem etiológico (ou o contrário) não fecha o diagnóstico.
- Usar o corte de IMC errado para a idade — ≥ 70 anos tem cortes diferentes (< 22 e < 20).
- Confundir triagem com diagnóstico — NRS-2002 rastreia risco; GLIM diagnostica.
- Ignorar a massa muscular — mesmo sem imagem, use antropometria e exame físico.