A nutrição parenteral salva vidas quando o trato gastrointestinal não pode ser usado — mas é uma terapia de alto risco. Suas complicações são, em grande parte, previsíveis e preveníveis, e organizá-las em três grupos ajuda a não esquecer nenhuma na beira do leito. Este artigo resume as complicações metabólicas, infecciosas e mecânicas da NPT e a monitorização que as antecipa.
1. Panorama: três grupos de complicações
| Grupo | Exemplos principais |
|---|---|
| Metabólicas | Hiperglicemia, distúrbios eletrolíticos, síndrome de realimentação, hipertrigliceridemia, disfunção hepática |
| Infecciosas | Infecção de corrente sanguínea associada ao cateter (ICSAC) |
| Mecânicas | Pneumotórax, punção arterial, mau posicionamento, trombose e oclusão do cateter |
2. Complicações metabólicas
Hiperglicemia
É a complicação metabólica mais frequente. A NPT ofertando glicose de forma contínua, somada ao estresse e à resistência insulínica do doente grave, eleva a glicemia. A hiperglicemia se associa a mais infecções e pior desfecho. Controle: não exceder a taxa de infusão de glicose (em geral ≤ 4–5 mg/kg/min no adulto grave), meta glicêmica em torno de 140–180 mg/dL e insulina conforme protocolo.
Distúrbios eletrolíticos
Hipofosfatemia, hipopotassemia e hipomagnesemia são comuns, sobretudo no início. Exigem dosagem seriada e reposição. Sódio, cálcio e o equilíbrio ácido-base também precisam de acompanhamento.
Hipertrigliceridemia
A oferta de lipídios pode elevar os triglicerídeos, sobretudo em sepse, pancreatite ou disfunção hepática. Monitore os triglicerídeos; se muito elevados, reduza ou pause a emulsão lipídica conforme prescrição.
🧮 Calculadora de NPT → Monte a formulação equilibrando glicose, aminoácidos e lipídios e confira a taxa de glicose.3. Síndrome de realimentação
Prevenção (base no protocolo NICE): comece com baixa oferta calórica, reponha eletrólitos antes e durante a progressão, ofereça tiamina e avance devagar com dosagens frequentes. Veja o passo a passo em Síndrome de Realimentação (protocolo NICE).
4. Disfunção hepática associada (IFALD)
A NPT prolongada pode causar alterações hepáticas — de esteatose a colestase (a chamada IFALD/PNALD). Fatores de risco: excesso de calorias/glicose, excesso de lipídios, ausência de dieta pelo trato e sepse de repetição. Estratégias: evitar hiperalimentação, revisar a oferta e o tipo de emulsão lipídica, e reintroduzir a via enteral (nem que seja trófica) o quanto antes.
5. Complicações infecciosas
A principal é a infecção de corrente sanguínea associada ao cateter (ICSAC). A solução parenteral, rica em glicose, e o acesso venoso central são meio propício para microrganismos. Prevenção:
- Técnica asséptica rigorosa na inserção e a cada manuseio (bundle de cateter).
- Lúmen exclusivo para a NPT sempre que possível.
- Curativo adequado, higiene das mãos e retirada do cateter assim que não for mais necessário.
- Diante de febre sem foco no paciente em NPT, sempre suspeitar do cateter e colher hemoculturas.
6. Complicações mecânicas
Ligadas ao acesso venoso central, ocorrem principalmente na inserção ou pela permanência do cateter:
- Pneumotórax e punção arterial na inserção (mais raras com punção guiada por ultrassom).
- Mau posicionamento da ponta — confirmação por imagem antes do uso.
- Trombose venosa e oclusão do cateter — lavagem regular e manuseio correto reduzem o risco.
7. Monitorização de rotina
| Parâmetro | Frequência sugerida |
|---|---|
| Glicemia capilar | Várias vezes ao dia no início, até estabilizar |
| Eletrólitos (Na, K, P, Mg) | Diário na fase inicial (crítico na realimentação) |
| Triglicerídeos | Ao início e periodicamente |
| Função hepática e renal | Periódica; mais frequente se NPT prolongada |
| Sinais de infecção / cateter | Avaliação diária (febre, aspecto do sítio) |
| Peso e balanço hídrico | Diário |
8. Erros comuns
- Hiperalimentar — mais calorias não é melhor; aumenta hiperglicemia e lesão hepática.
- Ignorar o risco de realimentação e iniciar a oferta plena no desnutrido.
- Não repor eletrólitos preventivamente na fase inicial.
- Usar o lúmen da NPT para outras infusões, aumentando risco de infecção.
- Manter a NPT quando o trato já poderia receber dieta enteral.