Quadro de referência rápida
Os números mais consultados, com a fonte principal. Sempre individualize e confirme na diretriz completa e no protocolo da instituição.
| Parâmetro | Referência usual | Fonte |
| Energia (paciente grave) | Meta 25–30 kcal/kg/dia; hipocalórica/trófica na fase aguda; calorimetria indireta é o padrão-ouro | BRASPEN / ESPEN |
| Proteína (paciente grave) | 1,2–2,0 g/kg/dia | ASPEN/SCCM / ESPEN |
| Obeso crítico | 11–14 kcal/kg peso real (IMC 30–50) ou 22–25 kcal/kg peso ideal (IMC >50); proteína 2,0–2,5 g/kg peso ideal | ASPEN/SCCM |
| Início da nutrição enteral (crítico) | 24–48 h após admissão/estabilização, com TGI viável | BRASPEN / ESPEN / ASPEN |
| Cabeceira durante a TNE | Elevada a 30–45° | ASPEN |
| Parenteral: acesso | Até ~900 mOsm/L: veia periférica; acima: acesso central | BRASPEN |
| Síndrome de realimentação (alto risco) | Iniciar ≤10 kcal/kg/dia (5 em risco extremo); repor tiamina e corrigir K, Mg e fósforo | NICE |
| Triagem NRS-2002 | Escore ≥3 = risco nutricional | ESPEN |
| Diagnóstico de desnutrição (GLIM) | ≥1 critério fenotípico + ≥1 etiológico (após triagem positiva) | GLIM 2019 |
Triagem e diagnóstico nutricional
A porta de entrada: rastrear risco em até 24–48 h da admissão e, quando positivo, confirmar o diagnóstico de desnutrição. Ferramentas no site: Triagem e GLIM.
ESPEN
NRS-2002
- Triagem de risco em adultos internados.
- Pré-triagem (IMC, perda de peso, ingestão, doença grave) e, se positiva, avaliação do estado nutricional e gravidade da doença, com ajuste por idade ≥70.
- Escore ≥3 indica risco; <3, reavaliar semanalmente.
BAPEN
MUST
- Rastreio simples e rápido, útil em enfermaria e ambulatório.
- Soma três componentes: IMC, perda de peso não planejada e efeito de doença aguda.
- Escore ≥2 = alto risco.
Crítico
NUTRIC Score
- Estima o risco nutricional na UTI, ligando estado nutricional e gravidade.
- Considera idade, APACHE II, SOFA, comorbidades e dias de internação (IL-6 opcional).
- Pontuação alta identifica quem mais se beneficia de terapia nutricional agressiva.
GLIM 2019
Diagnóstico de desnutrição
- Consenso global em duas etapas: triagem de risco e depois diagnóstico.
- Exige ≥1 critério fenotípico (perda de peso, baixo IMC, massa muscular reduzida) + ≥1 etiológico (redução de ingestão/absorção ou inflamação/doença).
- Gradua a desnutrição em moderada ou grave.
Idoso / músculo
MAN e SARC-F
- MAN (Mini Avaliação Nutricional): triagem e avaliação voltadas ao idoso.
- SARC-F: rastreio de sarcopenia por 5 itens funcionais (≥4 sugere risco).
Terapia nutricional enteral (TNE)
Regra de ouro: se o intestino funciona, use-o. Base em Enteral × Parenteral e Terapia Enteral.
BRASPEN 2023 · ESPEN 2019 · ASPEN/SCCM 2016
Início e progressão no crítico
- Iniciar precocemente (24–48 h) com TGI viável, preferindo a via gástrica.
- Progredir conforme tolerância; evitar sobrecarga calórica nos primeiros dias.
- Via pós-pilórica em alto risco de aspiração ou intolerância gástrica.
- Adiar a nutrição na instabilidade hemodinâmica grave (risco de isquemia intestinal).
Prática segura
Cuidados e complicações
- Confirmar posição da sonda por radiografia; cabeceira 30–45°; lavar (flush) regularmente.
- Diarreia: investigar causa antes de suspender (medicamentos, infecção, fórmula).
- Escolher fórmula (padrão, com fibra, oligomérica) conforme tolerância e absorção.
Terapia nutricional parenteral (TNP)
A via de exceção, quando o trato digestivo não pode ser usado. Detalhes em Terapia Parenteral.
BRASPEN 2018
Indicação e acesso
- Indicada quando o TGI é não funcional, inacessível ou precisa de repouso (obstrução, íleo prolongado, isquemia, fístula de alto débito, intestino curto).
- Osmolaridade define o acesso: até ~900 mOsm/L, veia periférica; acima, acesso central.
- Pode ser suplementar quando a enteral não atinge a meta.
Monitorização
Riscos a vigiar
- Infecção de cateter (corrente sanguínea) é a complicação mais temida: barreira máxima e cuidado rigoroso.
- Controlar glicemia e distúrbios hidroeletrolíticos; atenção à disfunção hepática associada.
- Risco de síndrome de realimentação ao iniciar.
Paciente crítico
Metabolismo em estresse: metas graduais, proteína generosa e atenção ao controle glicêmico. Veja Paciente Crítico UTI.
ASPEN/SCCM · ESPEN
Metas no crítico
- Energia 25–30 kcal/kg/dia como meta, com fase inicial hipocalórica; calorimetria indireta quando disponível.
- Proteína 1,2–2,0 g/kg/dia.
- Monitorar tolerância, glicemia e evolução.
ASPEN/SCCM
Obeso crítico (hipocalórica hiperproteica)
- Energia 11–14 kcal/kg peso real (IMC 30–50) ou 22–25 kcal/kg peso ideal (IMC >50).
- Proteína alta: 2,0–2,5 g/kg de peso ideal.
- Objetivo: preservar massa magra reduzindo o excesso calórico.
Síndrome de realimentação
A complicação que aparece justamente quando se começa a nutrir o desnutrido. Prevenir é a regra.
NICE
Prevenção e conduta
- Identificar alto risco: IMC muito baixo, perda de peso importante, ingestão mínima prolongada, eletrólitos baixos, abuso de álcool.
- Iniciar com ≤10 kcal/kg/dia (5 em risco extremo) e subir devagar em 4–7 dias.
- Repor tiamina antes/ao iniciar e corrigir potássio, magnésio e fósforo; monitorar de perto.
Perioperatório
Menos jejum, mais recuperação. Base no projeto ACERTO e nas diretrizes de cirurgia.
ACERTO · ESPEN Surgery
Abreviação de jejum
- Evitar jejum prolongado: líquidos claros até 2 h e sólidos até 6 h antes; bebida com carboidrato no pré-operatório.
- Realimentação precoce no pós-operatório.
- Reduz resposta ao estresse, resistência insulínica e tempo de internação.
Imunonutrição
Fórmulas imunomoduladoras
- Considerar em cirurgia oncológica de grande porte e em desnutridos.
- Substratos como arginina, ômega-3 e nucleotídeos, no perioperatório.
Disfagia
Consistência segura é decisão do fonoaudiólogo; a nutrição traduz isso em dieta adequada.
IDDSI 2019
Padronização de consistências
- Escala de 8 níveis (0 a 7): líquidos 0–4, alimentos 3–7, com cores e testes objetivos.
- Espessante de goma xantana costuma ser preferido (resistente à amilase, consistência estável).
- Atenção ao risco de desidratação com líquidos espessados.
Condições específicas
Ajustes de proteína e energia conforme o órgão e a doença.
BRASPEN 2021
Doença renal e hemodiálise
- Em hemodiálise, proteína mais alta (em torno de 1,0–1,2 g/kg/dia) pelas perdas dialíticas.
- Na fase conservadora (pré-diálise), oferta proteica mais controlada; individualizar sempre.
ESPEN
Doença hepática
- Não restringir proteína na encefalopatia; alvo em torno de 1,2–1,5 g/kg/dia.
- Refeições fracionadas com ceia noturna; BCAA em casos selecionados.
ESPEN Oncologia
Paciente oncológico
- Rastrear risco cedo; energia 25–30 kcal/kg/dia e proteína 1,0–1,5 g/kg/dia.
- Atuar sobre caquexia e desnutrição de forma precoce e contínua.
Como usar esta páginaEla é um resumo de orientação, um mapa de bolso. Os valores são referências usuais e podem variar entre diretrizes e entre pacientes. Antes de aplicar, confirme na diretriz completa e no protocolo da sua instituição, e individualize a conduta.
Fontes principais
- BRASPEN. Diretriz Brasileira de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN J. 2023.
- BRASPEN. Diretriz de Terapia Nutricional Parenteral. BRASPEN J. 2018.
- Singer P, et al. ESPEN guideline on clinical nutrition in the intensive care unit. Clin Nutr. 2019;38(1):48-79.
- McClave SA, et al. Guidelines for the Provision and Assessment of Nutrition Support Therapy in the Adult Critically Ill Patient (SCCM/ASPEN). JPEN. 2016;40(2):159-211.
- NICE. Nutrition support for adults (CG32) — inclui critérios de risco de síndrome de realimentação.
- Cederholm T, et al. GLIM criteria for the diagnosis of malnutrition. Clin Nutr. 2019;38(1):1-9.
- Cichero JAY, et al. International Dysphagia Diet Standardisation Initiative (IDDSI). Dysphagia. 2017;32(2):293-314. iddsi.org/framework
- Kondrup J, et al. NRS-2002. Clin Nutr. 2003. · Stratton RJ, et al. MUST (BAPEN). · Heyland DK, et al. NUTRIC Score.
- Projeto ACERTO / BRASPEN e ESPEN (cirurgia): abreviação de jejum e imunonutrição perioperatória.
- BRASPEN. Proteína na doença renal crônica e hemodiálise. 2021. · ESPEN guidelines (fígado, oncologia).
Aviso importante: Conteúdo educativo e acadêmico de apoio à decisão clínica, em constante atualização. Não substitui as diretrizes originais, o julgamento profissional nem os protocolos da instituição. Condutas medicamentosas e decisões terapêuticas são da equipe assistente.